Com mais trabalho e estudo, hoje as mulheres sabem que não existem regras para ser uma boa mãe: cada uma encontra um jeito de se dedicar aos filhos. Nesta matéria, ouvimos quatro mulheres de diferentes cidades da América latina que nos contaram como conciliam a vida cheia de compromissos com a qualidade no relacionamento entre mãe e filhos.
Quando a hora chega
Sempre que pensava na maternidade a psicóloga Magali Leite Dall’Oglio, 42, sorria para a possibilidade da adoção. “Nunca tive vontade de engravidar e sempre gostei da idéia de dar um lar a uma criança que já estivesse no mundo”, conta. Mas no corre-corre diário acabou demorando para pensar na idéia. A vontade se materializou ao conhecer Bruno, hoje com 2 anos. O bebê nasceu com um problema cardíaco sério e passou muito tempo no hospital onde Magali trabalha, em Itapecerica da Serra, São Paulo. Eles se encontravam com freqüência e o chamado materno começou a despertar na psicóloga.
A aproximação dos dois se deu no próprio hospital. A profissional acabava seu plantão e ia brincar e dar banho nele. Este é até hoje o momento mais gostoso da relação mãe e filho, segundo ela.“O Bruno adora água, então eu dava um banho longo, levava brinquedinhos, era uma farra. Eu queria alegrar a vidinha dele”, comenta Magali, que o adotou aos 11 meses.
Em 2006, Bruno passou por uma cirurgia que resolveu seu problema do coração e que fez a mãe repensar um pouco seu ritmo de vida.“Tirei férias para ficar com meu filho no período da cirurgia e percebi que eu precisava passar mais tempo com ele, porque estava perdendo momentos valiosos.”Após a recuperação de Bruno, Magali reduziu seu horário no hospital para poder ficar com mais freqüência ao seu lado. “Ser mãe transforma a vida da gente. Antes eu fazia planos para mim, agora o foco é ele, sempre.”
Trabalho intenso e realização em dobro
Desde que terminou a faculdade de jornalismo, a chilena Lorena Penjean, que vive em Santiago, é uma profissional bem-sucedida. Entretanto, em meio a uma meteórica carreira, que inclui sucessos na televisão chilena, e com 27 anos, Lorena ficou grávida.
E de gêmeos. “Minha vida mudou completamente, mas jamais pensei em deixar meu trabalho. Por um lado porque meus gêmeos merecem uma boa qualidade de vida. Mas o mais importante é que meus filhos devem ter uma mãe que os estimule intelectualmente.
E o fato de me manter ativa permite que eu me enriqueça dia a dia e, assim, lhes ofereça não só carinho, que toda mãe dá, mas também um mundo mais amplo, em que possam desenvolver desde cedo a capacidade de ser independentes, como eu sou.”
Alegrias
Hoje Lorena tem 29 anos e é chefe de duas equipes de roteiristas na televisão. Com tantas responsabilidades, seu dia começa antes das 7 da manhã e, às vezes, nem mesmo dorme. “Quando um dos gêmeos fica doente passo a noite toda acordada.”
O impressionante é que quando um melhora, o outro adoece. Os dois são muito ligados, e assim todo esforço é dobrado. Mas é algo em que não penso, simplesmente faço.”
E ainda que pareça estranho, descansa enquanto trabalha. “Nesse momento, me sinto muito estimulada e relaxo. Estar focada no meu trabalho me traz muitas alegrias, que levo para dentro da minha casa.”
Um filho de cada vez
A rotina da argentina Jelena Nadinic, 50, inclui os cuidados com a casa, com três filhos e um cargo de diretora técnica da Natura, em Buenos Aires. Ela ainda faz questão de completar que canta em um coral e sempre fez ginástica. Como muitas mulheres de sua geração, sua agenda é sempre completa.
Mas ela tem um jeito próprio de articular tantas tarefas e ainda acompanhar a rotina dos filhos em idades distintas: Victoria, 19, que estuda Filosofia, Ivo, 15, o típico adolescente “rebelde”, e Luca, o mais novo, com 10 anos.
Parte de seu segredo para equilibrar a vida é a presença e o apoio de seu companheiro, que a permite conciliar as atividades de mãe e executiva.“Ele é um pai presente, que sempre impulsionou minha vida profissional”, diz. Quando ela tinha que viajar para congressos, as crianças ficavam com o pai.
Relações enriquecedoras
Jelena passou pela experiência de mãe em momentos diferentes: quando engravidou da mais velha, tinha 28 anos, e do último, quando estava prestes a chegar aos 40. O ponto positivo da diferença de idade foi a possibilidade de se entregar com maior exclusividade ao recém-chegado em cada oportunidade.“Pude amamentar cada um deles até completarem um ano de vida, sem interferências de
irmãos ciumentos”, conta. “Os temores e expectativas também foram muito diferentes em cada gravidez. Era sempre como se fosse a primeira.”
Hoje, com os filhos maiores, as idades distintas também lhe proporcionam relações enriquecedoras com cada um deles: “Cada idade tem suas características”, analisa. Com Victoria, ela tem conversas “adultas”; com Ivo, acompanha as revelações e descobertas; com o mais novo, mantém o esforço
para que ele tenha uma infância sadia, com brincadeiras e esportes.
Por outro lado, os filhos compreendem a importância da figura materna em suas vidas. Como diz Ivo: “Você é uma mãe natural, sempre mãe, esteja onde estiver, não importa a situação”.
Mãe, avó, amiga
Quem observa o semblante sereno desta senhora de 77 anos nem desconfia da força que habita ali. Dona de olhos firmes e cheios de vida, dona Onides Marques, que mora em São Paulo, criou seis filhos e hoje acompanha de perto a educação dos dez netos. Aposentada – nem por isso menos ativa – sempre viveu à frente de sua época.
Divorciou-se aos 38 anos e criou os filhos sozinha, sem abandonar a profissão, em um tempo em que não era comum mulheres trabalharem fora. “Hoje meu dia-a-dia é mais tranqüilo, mas sempre trabalhei. Fui professora por 30 anos.”Tranqüilo? Almoços e jantares preparados para os netos, passeios no shopping, teatro, cinema, exposições, organização de festas para a família…
Novas gerações
Hoje seu cotidiano é assim, sempre na companhia do neto Caio, 28, que ela criou desde pequenino. Eles saem juntos, dividem algumas amizades, jogam no computador, trocam e-mails, e até uma comunidade virtual d. Onides possui.“Fui educada por minha mãe, depois vieram meus filhos, dos quais cuidava de acordo com as exigências da época em que vivíamos; depois criei meu neto, e tudo é muito diferente e gratificante”, explica.
Sentar para conversar com esta senhora sobre maternidade e modernidade, é uma verdadeira aula, ministrada por quem seguiu as formas de ser mãe de três gerações. “É difícil encontrar mães que acompanhem a evolução dos tempos para se aproximarem dos filhos. Conceitos, tecnologias, formas de vida. Tudo muda conforme as novas gerações vão chegando. Eu fui presenteado com uma avó assim”, diz Caio, com orgulho.



